Era uma vez uma moça que, devido ao sucesso da indústria cinematográfica, fonográfica AND pornográfica com o uso da imagem das princesas em quadrinhos e Cia. Ltda., ficou esquecida no castelo do faz de conta. Ela não era nada. Nem dorminhoca como a Bela Adormecida, nem linda como a Branca de Neve, nem prendada como a Cinderela. Nem tinha a vasta e brilhante cabeleira loira da Rapunzel, nem o dinheiro da Fiona… Talvez um pouco generosa como a Bela, mas não peituda como a Pequena Sereia. Também não era viúva como a bruxa da maçã - sim, pus a bruxa aí porque mulher viúva tem seu valor, já casou e tal, alguém quis, às vezes até recebe pensão. Também não era perfeita, nem linda, nem virgem, nem nerd. Era normalzinha! Meio rebelde sem causa, morava sozinha numa das torres do castelo, e lá vivia grudada num frigobar que fazia bastante gelo.
Não fazia muita coisa da vida, só jogava muito tempo fora. Em seu quarto havia uma prateleira com o diário de todas as suas primas princesas… Era uma tradição de família lê-los… Todas as rebentas que nasciam faziam isso e aprendiam muitas coisas. Ela não! Fingiu que os diários não existiam e julgou-se superior, preferiu escrever suas próprias linhas tortas.
Meio cansada de passar corretivo e rasgar folhas de sua vida, resolveu dedicar-se à leitura de toda aquela coletânea presente em sua prateleira, antes que as traças literalmente traçassem tudo, e finalmente descobrir o porquê de todos eles acabarem em Felizes Para Sempre.
Ela adoraria começar do começo, porque pode não ser perfeita, mas é um pouco esperta e, como suas primas também deveriam ser, a última história talvez beirasse a perfeição. Por isso, resolveu ler os diários um a um, aprendendo uma lição de cada. Mas, não havia datas nos manuscritos e talvez Rapunzel fosse mais velha do que todos pensavam… Organizou por escala de cor, acendeu um cigarro, pôs seus óculos e estirou-se em seu puff…
O primeiro que escolheu foi o da Branca de Neve: moderna para sua época, usava um corte chanel, inspirada na prima Cleópatra, provavelmente. Seu diário era delicado como sua dona. Nas entrelinhas, percebeu-se uma garota inocente, sem malícia… Seu lado materno também era gritante. Num determinado ponto de sua vida, ela tomou uma dose cavalar de zolpidem e ficou esperando um lindo príncipe aparecer para acordá-la daquele pesadelo bored de lavar AND passar AND cozinhar pros pequerruchos, e transformá-la em esposa. Boa menina, foi atendida pelas fadas da família. Feliz Para Sempre.
O segundo que leu era azul, a cor favorita de sua dona, provavelmente. Cinderela era seu nome. Levou uma vida meio lazarenta e foi parar na casa de uma tia meio quenga, com umas filhas mais quengas ainda. Essa tia era da parte baixa renda da família e fez Cinderela de escrava, ainda que a prima Isabel já houvesse libertado as negras. Cinderela era linda, loira e trabalhadora. Viciada em ácido, imaginava que seu fusca fosse uma abóbora. Era estabanada também e não tinha muita classe, por isso perdeu aquele seu sapatinho. Sortuda, foi encontrada pelo príncipe. Mais uma vez as fadas da família mexeram suas varinhas… Cinderela esfregou muito chão para ser solteira. Ela era da elite. Feliz Para Sempre.
Aurora, a dorminhoca, é autora do terceiro caderninho. No dia de seu nascimento as fadas safadas foram visitá-la e, porque encheram a cara de vinho, fizeram nhaca. Por isso, sua benção foi grande… Não precisou estudar nem perder a virgindade com um aborrecente maluco de cabelo ensebado, nem teve cólicas intermináveis. Ficou morando na floresta até ser devolvida para casar com outro. Lindo e rico tumem… Muito curiosa, mas também esperta, dormiu na fase chata da vida. Blah blah blah, mais pauzinhos das fadas e ‘tcharam’: despertou no melhor da vida, com um beijo delícia do delícia que amava. Feliz para Sempre.
Ariel, leitura número 4: sobrevivia sem oxigênio e era empreendedora… Sozinha, com a ajuda de seus lindos cabelos ruivos e seus seios volumosos, reergueu os Estúdios Disney, que estavam mais pra lá do que pra cá. Também beijou na boca, também casou. Feliz Pra Sempre.
Nossa, a próxima leitura não é um livro e sim um pen drive numa capa falsa: Fiona sempre surpreende! Tirando o fato da ogrisse que todos conhecem, e que muitas vezes se faz desnecessária, Fiona apresenta uma característica muito peculiar dentre todas as mocinhas: ela é fértil, bem fértil. Também aceitou ser verde pra sempre, isso é uma prova de amor imensa. Verde: a cor ingrata. Feliz Pra Sempre.
Próximo, a “leitura” mais colorida: o diário da Rapunzel. A princesa encalhada ficou pensando qual das primas, em qual parágrafo, disse que cabelo muito comprido é muito sexy? Linda, pura e otimista… Uma das mais perfeitas herdeiras da família. Cegou seu homem de paixão. Mais pelo moço do que por ela, as fadinhas se manifestaram novamente. Feliz Pra Sempre.
Eis que chega a vez da leitura da mais linda história de amor da família. O caderno mais lindo, um moleskine com dedicatória da Fera, chiquérrimo. A mais bem escrita também. Pois Bela amava literatura. Por isso sua perfeição, eu acho que aprendeu em todas as fábulas e contos o necessário pra vida real. Bela: abnegada, generosa, altruísta, despida de vaidades. Recebeu a difícil tarefa de revelar o mundo a um homem preso entre dois submundos. Como recompensa dupla, as fadas lhe deram um presente duplamente perfeito: de beleza física e um amor puro. Feliz Para Sempre.
Mas, hoje, as princesas acham meio FAIL fingirem-se de mortas para não ver certas coisas, como fizeram Branca e Aurora. Acham meio caro perder um sapato numa escadaria de balada, como fez Cinderela. Acham meio trabalhoso segurar a onda de um amor que passa por dificuldades, como Ariel. Acham meio totalmente OUT esperar o sapo virar príncipe, como fez a Bela, ou assumirem que são sapo, como fez Fiona. Acham meio submisso dar sua vida por um amor, como fez Rapunzel. Acham meio muita coisa na verdade…
Os contos de fada não são contos de fada, até porque quem passa o perrengue não são as fadas. São feitos por pessoas de carne e osso que, de maneira inconsciente ou proposital, passam uma mensagem subliminar… Nem as princesas de verdade vivem contos de fada. Lembram da famosa frase do Charles: eu queria ser o seu tampax. Lembram? Percebem o romance? O que você acha que a Princesa Diana fez? Pos sua coroa e ficou rezando pra feiosa nunca mais menstruar? Existem muitos contos sem princesa. Há Alice, Chapeuzinho Vermelho, Xuxa contra o Baixo Astral… tem vc. Sua própria história: escrita ou não, feliz ou não, valiosa ou não. As páginas estão ali, para serem reescritas, mas principalmente lidas e relidas. Não há nada mais interessante do que descobrir a vida, mas não há nada mais decepcionante do que repetir um erro.